
Sentado no banco da praça mais mórbida da cidade, um velho boêmio escuta as folhas dançantes das árvores. Tantas lembranças. Ele percebe uma música ao fundo, é a mesma música que embalou sua primeira dança. Tudo na sua imaginação se contorce de alegria. Ele sente o vento cortante da noite atravessar o parque e chegar até o seu pequeno e frágil banco. Ali ele dera seu primeiro beijo. Sentado naquele banco antigo ele chorara a morte de sua amada e jogara migalhas para os pombos no inverno. Já derramara sorvete naquele mesmo canto corroído pelo tempo, já trouxera seu filho e seu neto para observar as formigas e sentir o perfume das flores na primavera. Sem medo de parecer maluco, conversa com o banco como se este fosse seu cúmplice em todos os momentos. E por mais absurdo que fosse, o banco parecia respondê-lo, acolhendo-o sem se importar com a gravidade da situação. Era seu amigo mais fiel. Esteve lá sempre que o bom velho precisou. Na tristeza era consolador, na dor aconchegante e na felicidade companheiro. Passando a mão sobre aquele que seria seu lugar preferido em todo o mundo e notando as imperfeições que haviam sido trazidas com o vento e a chuva, o velho percebeu como eles eram parecidos. Rugas e buracos perpassavam a história dos dois, deixando um vazio angustiante em alguns pontos. Às vezes sentia ciúmes. “As pessoas não sabem como tratar de um banco nessa cidade”, pensava. O que seria do velho se não tivesse um lugar para ‘sentar’, pensar na vida e sentir as folhas que sempre dançavam nas árvores. Havia um motivo para a visita tão inesperada e tardia, mas não revelou nada ao amigo. Passou a noite inteira sentado, pensando e sentindo. Gostava dali. Lá percebia o mundo ao redor. Tudo era mais vivo e intenso. Na manhã seguinte, encontraram o corpo do velho sentado no banco, imóvel, inerte, mas com um sorriso no rosto. As pessoas só não entendiam uma coisa, como um velho cego poderia conhecer tão bem o caminho de casa até o banco da praça. Ele havia ido se despedir, mas acabou preferindo ficar. E ficou para sempre.
Escrito ao som de Ludwig Van Beethoven - 01:47 h
4 comentários:
Lindo! Maravilhoso, tocou fundo o meu coração. Bjos! Loan Medeiros
Ei, Issa, tipos assim. Sua narração não sai do canto, percebe? Mas percorre um mundo! Eu digo que poucas pessoas tem esses olhos. Mas é doloroso ter esses olhos. Porque as pessoas querem que você ande. Mas você só fica nesse banco. Eles não vêem que não é só um banco. Você deve ter suspirado fundo quando terminou de percorrer tooooooooodooooooo esse banco. Ele ficou grande, enorme, gigante! Terminou com um Tintino. O banco transcendeu a vida, bem no estilo de um ser-para-morte. Vc melhora seus textos cada vez mais. Seus adjetivos estão mais translúcidos, de tão penetrantes, e cortantes, de tão bem colocados. É bom seguir teu progresso!
Linda Lara!!
Vc é X.O.U - Show!
bjus!
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