terça-feira, fevereiro 06, 2007

Ser



Sentado no banco da praça mais mórbida da cidade, um velho boêmio escuta as folhas dançantes das árvores. Tantas lembranças. Ele percebe uma música ao fundo, é a mesma música que embalou sua primeira dança. Tudo na sua imaginação se contorce de alegria. Ele sente o vento cortante da noite atravessar o parque e chegar até o seu pequeno e frágil banco. Ali ele dera seu primeiro beijo. Sentado naquele banco antigo ele chorara a morte de sua amada e jogara migalhas para os pombos no inverno. Já derramara sorvete naquele mesmo canto corroído pelo tempo, já trouxera seu filho e seu neto para observar as formigas e sentir o perfume das flores na primavera. Sem medo de parecer maluco, conversa com o banco como se este fosse seu cúmplice em todos os momentos. E por mais absurdo que fosse, o banco parecia respondê-lo, acolhendo-o sem se importar com a gravidade da situação. Era seu amigo mais fiel. Esteve lá sempre que o bom velho precisou. Na tristeza era consolador, na dor aconchegante e na felicidade companheiro. Passando a mão sobre aquele que seria seu lugar preferido em todo o mundo e notando as imperfeições que haviam sido trazidas com o vento e a chuva, o velho percebeu como eles eram parecidos. Rugas e buracos perpassavam a história dos dois, deixando um vazio angustiante em alguns pontos. Às vezes sentia ciúmes. “As pessoas não sabem como tratar de um banco nessa cidade”, pensava. O que seria do velho se não tivesse um lugar para ‘sentar’, pensar na vida e sentir as folhas que sempre dançavam nas árvores. Havia um motivo para a visita tão inesperada e tardia, mas não revelou nada ao amigo. Passou a noite inteira sentado, pensando e sentindo. Gostava dali. Lá percebia o mundo ao redor. Tudo era mais vivo e intenso. Na manhã seguinte, encontraram o corpo do velho sentado no banco, imóvel, inerte, mas com um sorriso no rosto. As pessoas só não entendiam uma coisa, como um velho cego poderia conhecer tão bem o caminho de casa até o banco da praça. Ele havia ido se despedir, mas acabou preferindo ficar. E ficou para sempre.
Escrito ao som de Ludwig Van Beethoven - 01:47 h

4 comentários:

Anônimo disse...

Lindo! Maravilhoso, tocou fundo o meu coração. Bjos! Loan Medeiros

Allan Denizard disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Allan Denizard disse...

Ei, Issa, tipos assim. Sua narração não sai do canto, percebe? Mas percorre um mundo! Eu digo que poucas pessoas tem esses olhos. Mas é doloroso ter esses olhos. Porque as pessoas querem que você ande. Mas você só fica nesse banco. Eles não vêem que não é só um banco. Você deve ter suspirado fundo quando terminou de percorrer tooooooooodooooooo esse banco. Ele ficou grande, enorme, gigante! Terminou com um Tintino. O banco transcendeu a vida, bem no estilo de um ser-para-morte. Vc melhora seus textos cada vez mais. Seus adjetivos estão mais translúcidos, de tão penetrantes, e cortantes, de tão bem colocados. É bom seguir teu progresso!

Alan Bacelar disse...

Linda Lara!!

Vc é X.O.U - Show!

bjus!