
As folhas passam, os dias não. Ele permanece ali, sentado com seu copo de leite na mão, uma revista velha em cima da mesa e o cachorro faminto no canto do quarto bagunçado. Não sabe para onde ir, ou o que fazer. Ele só sabe esperar. Aliás, isso ele faz bem, muito bem. Esperar. Espera que os dias passem, que seu cachorro fuja, que a revista rasgue, que o leite estrague e que as rugas venham. Não tem medo do futuro. Mas não sabe o que fazer com o presente. Olha o calendário como se quisesse devorá-lo. “Quem sabe o tempo não passa mais rápido”, pensa. Nas suas caminhadas espera chegar a algum lugar, mas acaba sempre voltando para o começo. Ele parece cansado. Cansado da vida, da dor, da perda, da espera. Sem saber que busca algo trágico ele senta e espera, vendo as folhas do calendário passar. Deseja que o dia de amanhã seja diferente. Espera que algo o salve. Mas como a vida é cruel. Nada muda da noite para o dia. E como o brilho fugaz de uma estrela cadente, sua mente se ilumina com idéias nunca antes imaginadas. Ele, então, resolve não mais esperar. Levanta de sua cadeira, bebe o leite azedo, joga a revista ultrapassada no lixo, pega a coleira do cachorro e embarca na maior aventura de todas, a vida.