segunda-feira, outubro 23, 2006

Faz de Conta....


"Faz de conta que ela era uma princesa azul pelo crepúsculo que viria, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que sangue escarlate não estava em silêncio branco escorrendo e que ela não estivesse pálida de morte, estava pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz-de-conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz-de-conta verde cintilante de olhos que vêem, faz de conta que ela amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, faz de conta que vivia e que não estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que era sábia bastante para desfazer os nós de marinheiros que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua, faz de conta que ela fechasse os olhos e os seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos da gratidão mais límpida, faz de conta que tudo o que tinha não era de faz-de-conta, faz de conta que se descontraíra o peito e a luz dourada a guiava pela floresta de açudes e tranqüilidade, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando. "
Clarice Lispector


-- Gostaria de expressar minha humilde gratidão e admiração á essa mulher que através das palavras conseguiu chegar ao mais próximo significado da minha essência como ser existente. Ela faz as palavras bailarem no papel numa sincronia divina e numa harmonia inigualável. Ela prova por “A mais B” que não é necessário palavras rebuscadas para se fazer uma arte bela e pura! Clarice me ensina até hoje como dar o devido valor e a merecida importância para as pequenas coisas da vida. Do simples desabrochar de uma flor, a uma simpática chuva de verão, passando pela destruidora bomba atômica. Tudo vira poema nas mãos de Clarice e nos faz refletir sobre o que somos e construímos a cada dia perto e dentro de nós!


"Até onde você está disposto a ir na toca do Coelho?"

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